Adelmário Coelho fala da AABB, discorda de Bell Marques e critica Ministério da Cultura


Um dos forrozeiros ícones no Brasil, Adelmário Coelho bateu um papo com a Coluna Holofote para falar dessa grande festa que ele está fazendo todas as sextas-feiras em Salvador, à frente do Forró da AABB, o mais tradicional de Salvador. Adelmário contou que só aceitou fazer parte do projeto com algumas condições. As condições, claro, estão enumeradas abaixo. E mais: o forrozeiro contrapõe opinião de Bell Marques do Chiclete com Banana sobre a capacidade de bandas de forró em lotar shows atualmente e criticou duramente as bandas de forró que usam mulheres seminuas no palco para fazer sucesso. O nome das bandas, ele não quis citar, mas, para bom entendedor... Confira!


"Eu acho ridículo bandas de forró de nome usarem a mulher como um objeto para vender"

Coluna Holofote: Esse ano, o Forró da AABB tem Adelmário Coelho como anfitrião. Como aconteceu isso?
Adelmário Coelho:
Essa proposta que meu filho, William Coelho, já vinha amadurecendo há algum tempo – não no forró da AABB, mas sim, em focar um projeto aqui com essa intensidade, esse volume de shows. Na verdade, eu até relutava em fazer esses ensaios, mas ele acabou que me convenceu e quando, este ano, a minha produtora intensificou mais a intenção de fazer esse projeto e focou o Forró da AABB e houve, claro, a reciprocidade da outra produtora que já fazia o Forró da AABB há alguns anos, então, você imagina ser um forró tradicional na cidade, são 20 anos que o Forró da AABB realmente acontece aqui  e eu digo até que, se tratando de um clube do Banco do Brasil, seja pioneiro no Brasil a manter e sustentar durante 20 anos, um evento cultural como o forró é e por um período tão longo. Então, eu achei que era interessante e nós resolvemos participar ativamente, administrando também, mas colocamos algumas restrições no projeto, a fim de dar uma melhoria a ele.




CH: Tipo...
AC:
A AABB precisa passar por uma transformação. A grande transformação e a grande preocupação nossa - por isso que a gente chama o “Novo Forró da AABB” – veio de uma manifestação geral do público que nos dava esse feed back do Forró da AABB ser numa área extremamente quente e desconfortável. Eu sei disso porque todo ano eu participava do Forró, mas eu fazia um show e nada mais. Fazia um papel meramente profissional, em nível de não estar administrando. Então, nos reunimos e decidimos climatizar a área a ponto de deixar as pessoas absolutamente confortáveis. Outro ponto seria abrir, fisicamente, a parte onde as pessoas dançam. Não pudemos abrir completamente porque tem o problema de engenharia. Mas nós mexemos, estruturalmente, nas laterais, quebramos paredes para que a ventilação pudesse fluir melhor e para que as pessoas que estão fora tenham uma visibilidade melhor do galpão.




CH: O que mais o Novo Forró da AABB traz de diferente das outras edições?
AC:
Além do que eu já citei, tem uma área do Forrozeiro Vip, que é para receber, claro, personalidades, pessoas que queiram ir para essa área; temos uma feira de artesanato; tem uma Vila do Forró, além de vários restaurantes, onde você, depois que dançar o forró, vai para lá e encontra os melhores restaurantes, como A Porteira, Sandwich Hall, tem o Armazém, Sushimaki e por aí vai... Temos também um estacionamento gratuito para mais de 800 carros, então, ninguém vai pagar estacionamento, então, são intervenções significativas e tem várias outras coisas.




CH: Conversando com você, a gente percebe que você está envolvido neste projeto numa relação que vai muito além do mero artista.
AC:
Na verdade, o meu filho conduz, mas a administração geral eu tenho informação total de como anda, inclusive hoje estou aqui, visitando e dando informações a esse site do qual eu sou visitante assíduo, todos os dias eu acesso, aliás, a Bahia toda, né? E assim, eu aproveito para passar para as pessoas essa nossa nova proposta de fazer um forró com mais conforto.




CH: Você disse que relutava para fazer ensaios na cidade. Por quê?
AC:
Eu não tinha absorvido ainda a ideia de você ficar fazendo 10 ou 11 shows seguidos. Mas eu vejo que é uma boa proposta, aliás, a Bahia tem tradição nisso porque o axé faz isso com muita maestria mesmo. E como eu faço shows aqui de uma forma mais espaçosa de tempo, eu acho que vai se tornar numa mão de via dupla, porque eu vou matar a saudade do público que apóia meu trabalho e vice-versa.




CH: Mas você acha que suas apresentações na cidade todas as sextas-feiras pode acabar saturando o público?
AC:
Não. Porque, de qualquer forma, nós vamos procurar dar uma diversidade muito grande no repertório, há uma renovação do público natural, nós vamos trazer toda sexta convidados especiais, que vai dar um input melhor à atividade e vão acontecer atividades diferentes também, então, acho que não chega a tanto, não.




CH: E você está participando nas decisões sobre os convidados que vão se apresentar no Forró da AABB?
AC:
Naturalmente. Os convidados, eles têm que passar pelo nosso crivo, embora a gente respeite a opinião de todos, todo mundo exerça um trabalho democrático, todo mundo dá sugestões, não temos absolutamente nada contra ninguém, mas evidentemente que, quando há uma harmonia, flui melhor.




CH: Mas tem algum convidado que você não abre mão de ter no Forró da AABB?
AC:
Se eu pudesse, traria todos os forrozeiros. Mas isso, às vezes, não é possível, porque todo mundo tem sua agenda. Por ser uma sexta-feira, surge aí um complicador, porque todo mundo está em atividade. Mas vem gente do axé, do pagode, de outros segmentos musicais também. Não vai ser só o forró que vai pintar lá na AABB, não.




CH: Os convidados vão dividir o palco com você?
AC:
Vamos cantar juntos.




CH: E quando for um pagode, por exemplo, Adelmário Coelho vai cantar e dançar?
AC:
Ah, sim! Vou dar uma palhinha com eles, sim. Quem sabe eles não colocam o pagode em ritmo de forró? Durval Lelys já me deu esse prazer em vários eventos que eu fiz aqui, é uma pessoa que eu tenho um carinho extraordinário e eu não vou nem citar nomes aqui, até para não ser injusto, mas a gente pretende levar, se Deus quiser, uma boa galera para lá.




CH: E a banda Forrozão? Você já conhecia?
AC:
Os meninos fazem um trabalho que eu já conhecia. Na minha participação, nesses shows que eu fazia lá na AABB, nós sempre nos encontrávamos, adoro o trabalho que eles desenvolvem, fazem um trabalho interessante e agradam a nação forrozeira em sua plenitude.




CH: Antes, o título de anfitrião pertencia a banda Forrozão. Com a sua entrada no Forró da AABB, ela perde o título?
AC:
Evidentemente que o Forró vai ser ancorado por mim, mas eles vão estar lá comigo também e nós vamos buscar os convidados, as pessoas para fazerem parte desse projeto.



CH: Você considera sua entrada estratégica para atrair mais o público?
AC:
Não sei, eu quero ver. Quero ver se vai ser. Se for, ótimo, vai atender às nossas expectativas. Mas vamos ver qual vai ser a reação do público. Eu tenho um carinho extraordinário pelo meu público todo e espero que ele se disponibilize a ir me visitar e que a gente possa interagir um pouco mais, porque é a oportunidade que nós temos também, sabe? O valor desse tipo de projeto é que você tem com o seu público uma aproximação maior. Minha vida é corrida a mil. Eu subo no palco, do palco para o camarim, depois para o ônibus e tchau, vou embora. Não tenho contato como as pessoas desejam. Lá, não. Na AABB nós vamos nos abraçar, conversar e eu tenho tempo à vontade, a não ser que eu tenha outro show depois de lá e tenha que sair correndo.



CH: Para você, qual a grande revelação do forró baiano?
AC: 
A Estakazero faz um trabalho muito bonito, Cangaia de Jegue faz um trabalho muito bonito, Flor Serena faz um trabalho legal, são bandas que vêm com essa galerinha nova, essa juventude, fazendo um trabalho e tendo uma receptividade muito legal. Eu gosto do trabalho desses meninos e acho que eles fazem um trabalho muito decente. Por que que eu digo trabalho decente? Porque fazem um forró com responsabilidade. Eles não fazem o modismo, eles não exploram o símbolo maior do universo, que é a mulher. Quero dizer explorar de uma forma pejorativa e é isso que você vê em algumas bandas de nome bem maior: usando a mulher como se fosse um objeto e isso me deixa constrangido, sabe? Você usar uma cultura, usar uma figura tão especial na vida de todos da humanidade, entende? É como se eles pensassem “eu tenho que vender isso, porque se eu não fizer isso, eu não faço sucesso” e eu acho ridículo isso.



CH: Que bandas fazem isso?
AC:
Não. Eu não vou citar nomes, mas o público sabe bem quem é que faz isso.



CH: O que você acha dessa nova onda de forró elétrico?
AC:
Eu acho que tem um mercado saudável e contribui, naturalmente, para a movimentação cultural. Eu diria que tem uma diferença muito grande do forró.




CH: Na sua opinião, descaracteriza o ritmo?
AC:
Não é que descaracterize, mas não tem a célula, a matriz do verdadeiro forró.




CH: Qual é o verdadeiro forró?
AC:
É o forró de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda, Marinês, Trio Nordestino e quando eu falo Trio Nordestino eu me refiro a Lindú, Cobrinha e Coroné, foram os três baianos que honraram esse estado como poucos e no segmento do forró, você pode ter certeza que eles contribuíram muito, ancorando Luiz Gonzaga, porque uma andorinha só, não faz verão. E esse grupo ajudou Luiz Gonzaga a implantar o que hoje nós chamamos de cultura popular nordestina.



CH: Quem é a sua inspiração no forró?
AC:
Trio Nordestino. Lindú, Cocrinha e Coroné. Eu faço questão de dizer isso, porque eu tenho um momento em que eu homenageio essas pessoas no meu palco e quando eu levo a figura do Lindú, gente, as pessoas não conhecem a fisionomia dele. Você conhece a música “morena diga onde é que tu tava, onde é que tu tava, onde é que tava tu”? Pois é dele. Essa música vendeu, na época, nos anos 70, mais de 1 milhão de cópias e bateu de frente com Roberto Carlos.



CH: Eu sempre faço essa pergunta a todo forrozeiro. A inserção de bandas de axé durantes os festejos juninos é prejudicial aos forrozeiros? Tira o espaço de alguns?
AC:
Olha, você veja como é que essa economia é focada. Às vezes você coloca em segundo plano um fator cultural e prevalece o econômico. Evidentemente que essas bandas que têm uma projeção nacional, elas estão ali para dar um arrojo financeiro no projeto. Mas, se você for olhar pelo lado cultural, não. É para se manter a tradição, então, evidentemente que há uma diferença real. Embora eu não seja contra. Não vou dizer aqui que sou contra. Mas se você fala que a cultura deveria ser preservada, eu acho que sim. Eu estou escrevendo um livro, que deve ser lançado no segundo semestre, onde eu busco exatamente isso.




CH: Uma vez, Bell Marques do Chiclete com Banana disse que a inserção das bandas de axé nos forrós da vida é estratégica, porque senão, não lotaria como acontece num Forró do Bosque, por exemplo, só colocando banda de forró. Você concorda?
AC:
Que atrai mais o público, atrai. Mas eu não chegaria ao ponto de afirmar que as bandas de forró não enchem festa. Enchem, sim. Lotam mesmo. Tem capacidade para isso. Eu acho que também, ninguém deve se julgar auto-suficiente ao ponto de dizer... Por exemplo, eu já fiz show com outras bandas de forró no Parque de Exposições de colocar 100 mil pessoas no espaço, em pleno dezembro. Então, eu acho que isso tudo é o momento.




CH: Mas hoje em dia, você acha que um show só de forró num evento da proporção de um Forró do Bosque, teria condição de lotar o espaço?
AC:
Claro. Se eu dissesse que não, seria eu não acreditar naquilo que eu estou fazendo e não acreditar na capacidade das pessoas que estão aí levando milhares de pessoas a movimentar. Não tenha dúvida que, se você fala de um Chiclete com Banana, uma Claudia Leitte, a projeção que eles têm, naturalmente que é uma coisa grandiosa. Mas eu acho que as bandas e os forrozeiros hoje têm essa capacidade, inegavelmente. A gente pode lotar qualquer espaço, não tenha dúvida. 



 
CH: Como está a aceitação do forró no Brasil?
AC:
Muito boa. Há seis, sete anos, você não ouvia falar de forró como você ouve hoje na capital. As rádios não tocava forró. Era uma coisa tão sazonal, que ela só tocava no meio de junho e olhe lá. Hoje, não. Hoje você tem as programações das rádios o ano todo fazendo isso. E do estado nordestino que tinha essa rejeição maior, não estado, a capital, era Salvador. Porque nosso movimento de axé, que é glamoroso, que é grande, bonito, ele, de uma certa forma, era um contraponto para que o forró viesse a entrar com tanta força aqui. Mas, graças a Deus, a juventude abraçou o forró. E o governador do estado, Jaques Wagner e o secretário de turismo, Domingos Leonelli, justiça se faça – e eu estou falando aqui como um consumidor e talvez até como artistas também – ajudaram muito. Porque eu, durante 15 anos, eu nunca vi uma ação governamental em prol do forró. O que existia, culturalmente, era através da nossa luta, da nossa persistência. Mas o Governo de Jaques Wagner e o secretário Domingos Leonelli perceberam que o forró merece mais atenção. É tanto que eles têm como foco hoje tornar o forró um produto turístico como é o carnaval.



CH: Me conte mais sobre o seu livro. É uma biografia?
AC:
É. É uma biografia, mas é muito mais que uma biografia. Ela traz exatamente aquilo que essa geração não conhece: as tradicionais festas populares do Nordeste, principalmente.  Eu tive agora no interior, porque o livro, além da parte tradicional, ele é um áudio book, então eu fui gravar as cantadeiras de São Gonçalo ao vivo para que as pessoas conheçam, porque São Gonçalo é um santo e as pessoas no interior se apegam muito a ele pedindo para que ele mande chuva e dentre outras várias promessas que são feitas, a religiosidade é tão forte, a fé que as pessoas têm em São Gonçalo, que eles pagam promessa através da roda, da dança e, numericamente, podem ser 6 rodas, 10, 12, 24, 48... às vezes passam dois dias dançando. Você veja a seriedade de um movimento desse: se você estiver dançando e um cachorro passar ali, para-se tudo e começa tudo de novo. Então, você tem que trazer isso para a realidade, não pode esquecer o seu passado, porque um país sem passado, não é um país. Então, esse livro tem esse enfoque cultural das grandes festas populares do Brasil. Já foi aprovado pelo Ministério da Cultura a nível Federal e eu fiquei triste porque a área cultural da Bahia não aprovou esse livro. Eu, como um baiano, me entristeceu muito a área da cultura não aprovar e o Ministério da Cultura Federal aprovar.




CH: E por que você acha que o Ministério da Cultura da Bahia não aprovou?
AC:
Eu acho que deve ter sido um momento infeliz de quem geriu isso.
 



 



Por Fernanda Figueiredo 



Quarta-Feira, 17.03.2010

 


 

 



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